Bahia, Brasil - 20 de setembro de 2026

21:55

Saúde sexual também é bem-estar; informação sobre o próprio corpo ajuda a prevenir problemas e melhorar relações

Saúde sexual também é bem-estar; informação sobre o próprio corpo ajuda a prevenir problemas e melhorar relações

Dia Mundial da Saúde Sexual, celebrado em 4 de setembro, amplia a discussão sobre prazer, consentimento, prevenção e autocuidado; especialista explica por que informação também é uma ferramenta de saúde

Quando se fala em saúde sexual, a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e de uma gravidez não planejada costuma estar no centro da conversa. Mas o cuidado com a sexualidade vai além: envolve conhecer o próprio corpo, compreender desejos e limites, estabelecer relações consensuais, lidar com questões emocionais e buscar ajuda diante de dores, dificuldades ou mudanças que afetem o bem-estar.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a saúde sexual parte do bem-estar físico, emocional, mental e social, defendendo uma abordagem que não se limite à ausência de doenças ou disfunções. A discussão ganha destaque com o Dia Mundial da Saúde Sexual, celebrado em 4 de setembro. Em 2026, a campanha internacional tem como tema “Every Body”, ampliando o olhar sobre um assunto ainda cercado de tabus: informação sobre sexualidade também é uma ferramenta de cuidado e promoção da saúde.

Para o especialista em Sexologia e Sexualidade Januário Mourão, à frente do projeto Prazer! Te conhecer, esse cuidado começa pela relação que cada pessoa estabelece com o próprio corpo. O acesso a informações confiáveis ajuda a reconhecer limites, compreender sensações, identificar alterações e tomar decisões com mais autonomia.

“A educação sexual é fundamental porque oferece ferramentas para que as pessoas compreendam o próprio corpo, reconheçam limites, expressem desejos, estabeleçam relações consensuais e tomem decisões mais conscientes. A ciência não pode ser substituída por ‘achismos’, experiências isoladas ou conteúdos produzidos apenas para gerar engajamento”, explica.

Informação x cobranças

As dúvidas que chegam ao trabalho do especialista mostram como a falta de informação pode se misturar a questões de autoestima, desempenho e expectativas sobre o que seria uma vida sexual “normal”. Entre os temas recorrentes estão tamanho do pênis, duração da relação sexual, disfunção erétil, anorgasmia, zonas erógenas, desejo, masturbação e dificuldades de comunicação entre parceiros.

Para Januário, essas questões muitas vezes revelam cobranças e padrões construídos socialmente. “Por trás da preocupação com o tamanho do pênis, por exemplo, muitas vezes existe uma ideia de masculinidade baseada em comparação, desempenho e validação. A disfunção erétil também pode estar relacionada à ansiedade, à cobrança e ao medo de não corresponder às expectativas. Entre as mulheres, são frequentes questões sobre dificuldade de alcançar o orgasmo, desconhecimento do próprio corpo, diferença de desejo nos relacionamentos e naturalização da dor durante o sexo”, afirma.

A relação com o próprio corpo também aparece de maneiras diferentes entre homens e mulheres. Enquanto determinadas cobranças sobre os homens estão associadas à ideia de desempenho e virilidade, muitas mulheres ainda chegam à vida sexual com pouco conhecimento sobre o próprio prazer e com a percepção de que desconfortos ou dores seriam naturais.

“Ainda existe uma educação que ensina muitas mulheres a cuidar do prazer do outro, mas não a reconhecer, comunicar ou priorizar o próprio prazer. Meu trabalho procura mostrar que dúvidas consideradas individuais frequentemente revelam questões sociais mais amplas”, destaca.

Consentimento e comunicação

Além do conhecimento sobre o próprio corpo, a saúde sexual passa pela capacidade de estabelecer relações baseadas em comunicação, respeito e consentimento. Saber expressar desejos, reconhecer limites e conversar sobre desconfortos são aspectos que interferem diretamente na forma como a sexualidade é vivenciada.

Essa perspectiva amplia também o papel da educação sexual, que deve abordar não apenas prevenção de ISTs e gravidez, mas conhecimento anatômico, autocuidado, consentimento, diversidade corporal, afetividade, comunicação e identificação de situações de violência ou sofrimento.

“A ausência de informação também aumenta a vulnerabilidade. Pessoas que não conhecem o próprio corpo podem ter dificuldade para reconhecer situações de violência, identificar sintomas ou procurar ajuda. Uma educação sexual responsável aborda consentimento, respeito, prevenção, autocuidado, diversidade corporal, saúde, afetos, limites e comunicação”, ressalta Januário.

Especialista em Sexologia e Sexualidade, professor PhD em Anatomia e psicanalista, Januário Mourão atua há mais de duas décadas com temas relacionados a corpo, prazer, comportamento e masculinidades. À frente das iniciativas Prazer! Te conhecer e Antimachismo Social Club, defende que ampliar o acesso à informação é uma das formas de transformar a relação das pessoas com o próprio corpo e com a sexualidade.

“Cuidar da saúde sexual também é cuidar da saúde como um todo. Isso passa por conhecer o próprio corpo, compreender os próprios limites, saber comunicar desejos, respeitar o outro e entender que prazer, consentimento, prevenção e autocuidado não são assuntos separados. Quando conseguimos falar sobre sexualidade com informação e responsabilidade, também criamos condições para relações mais conscientes, seguras e saudáveis”, conclui.