Bahia, Brasil - 7 de agosto de 2026

07:53

Doar imóvel em vida pode evitar prejuízos? Bahia bate recorde de doações antes de mudança no imposto

Doar imóvel em vida pode evitar prejuízos? Bahia bate recorde de doações antes de mudança no imposto

Transferir um imóvel para os filhos ainda em vida deixou de ser uma decisão restrita a famílias com grandes patrimônios. Diante das mudanças previstas na tributação sobre heranças e doações, muitos baianos passaram a antecipar o planejamento sucessório para evitar custos maiores no futuro.

O movimento já é percebido nos cartórios. Em 2025, os Cartórios de Notas da Bahia registraram 2.763 escrituras públicas de doação de imóveis, o maior número da série histórica e um crescimento de 65% em relação a 2020, quando foram lavrados 1.674 atos.

A procura está relacionada às mudanças trazidas pela Reforma Tributária. A Lei Complementar nº 227/2026 estabeleceu diretrizes nacionais para o ITCMD e reforçou a possibilidade de tributação com base no valor de mercado dos bens. Como eventuais alterações estaduais tendem a produzir efeitos apenas a partir de 2027, 2026 passou a ser visto como um momento estratégico para avaliar o planejamento patrimonial.

Segundo o advogado Dr. André Andrade, especialista em Direito Sucessório e Planejamento Patrimonial, o aumento das doações revela uma mudança de comportamento. “O planejamento sucessório deixou de ser um assunto restrito a grandes fortunas. Hoje, mesmo famílias com um único imóvel precisam entender os impactos da doação, do inventário e da tributação. O objetivo não é apenas economizar impostos, mas evitar conflitos, insegurança e perda patrimonial.”

Na Bahia, as doações atualmente são tributadas pelo ITD, com alíquotas entre 3% e 4%, enquanto, nas heranças, a tributação pode chegar a 8%, conforme a legislação estadual.

Além da expectativa de mudanças tributárias, o inventário também pesa na decisão das famílias. Dependendo do patrimônio e da complexidade do processo, as despesas podem incluir imposto, custas cartorárias ou judiciais, avaliações e honorários advocatícios, chegando, em alguns casos, a representar uma parcela significativa do patrimônio.

Uma das alternativas mais utilizadas é a doação com reserva de usufruto, que permite aos pais transferirem a propriedade do imóvel aos filhos, mantendo o direito de morar no bem, administrá-lo ou receber rendimentos durante a vida.

“A doação com usufruto pode ser uma solução interessante porque organiza a sucessão sem retirar dos pais o direito de uso do imóvel. Mas cada caso deve ser analisado individualmente”, explica o advogado.

O especialista ressalta que a doação não deve ser feita de forma impulsiva. É preciso considerar aspectos como os direitos dos herdeiros necessários, a situação patrimonial da família, o regime de bens e os impactos tributários.

“Não existe uma solução única. Em alguns casos, a doação é o melhor caminho; em outros, o mais adequado pode ser um testamento, uma holding familiar ou a combinação de diferentes instrumentos. O planejamento sucessório deve ser personalizado.”

O recorde de doações registrado na Bahia demonstra que o planejamento sucessório passou a ocupar um papel cada vez mais importante nas decisões familiares. No entanto, especialistas alertam que qualquer estratégia deve ser adotada com orientação jurídica para garantir segurança e evitar futuros conflitos.